quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Noémi: um futuro para este rio (3)

O rio Noémi como elemento identitário

Há no concelho da Guarda um conjunto de aldeias que têm como elemento comum o rio Noéme. Este rio nasce em Vale de Estrela e junta-se ao Côa, no Jardo, no concelho de Almeida. “Poucos sabem qual é o rio da minha aldeia (...) E por isso porque pertence a menos gente, / É mais livre e maior o rio da minha aldeia”: este verso de Alberto Caeiro reflecte o sentimento que estas gentes nutrem pelo Noéme, ou, usando a expressão corrente, “a Ribeira!”. Este é o pequeno rio, de uma pequena terra, poluído por pequenas pessoas a cobertos dos pequenos poderes. Tudo começou na pré-história do saneamento básico da Guarda em que este curso de água se transformou no bacio da cidade, num tempo em que isto era prática em quase todo o lado em Portugal. Hoje, no Portugal moderno, passados milhões de euros da União Europeia investidos em infra-estruturas de tratamento de águas residuais, continua a ser o despejo da indústria local. Um problema que urge resolver, uma vergonha que urge reparar.

Nos questionários mandados realizar pelo Marquês de Pombal aos párocos de Portugal em 1758 (ficaram conhecidos na historiografia como Memórias Paroquiais) lemos o que era o Rio Noeime (ou nas palavras poéticas do pároco do Rochoso, Noémi, remetendo para a personagem bíblica). Resumindo o conteúdo dos diversos textos é de realçar o que em comum disseram os inquiridos: o rio Noéme tinha muitos moinhos em uso, onde se moía trigo e centeio; as suas margens eram cultivadas e nas suas margens havia predominância de amieiros e de salgueiros; havia peixes em abundância (bordalos, sardas e enguias) nas suas águas. O Noéme do século XVIII era o Noéme da década de 70 do século XX. As mesmas vivências, os mesmos usos, as mesmas características físicas. O rio calou-se a partir daí e deixaram de se ouvir os seus sons característicos: o coaxar das rãs, o cantar dos guarda-rios, o som dos motores de rega a puxar água, a água a bater nas mós dos moinhos. Dizia o vigário Alexandre da Silva Pereira nas Memórias Paroquiais: “os povos usam livremente as suas águas”. Nos dias de hoje o rio é destruído por alguns e este património é retirado a todos. Não são livres as pessoas de usufruir e de viver o seu rio.

Mas afinal quanto vale um rio? O progresso, que na realidade trouxe qualidade de vida às populações e melhorou as condições sanitárias das nossas aldeias, também destruiu mais do que devia a paisagem. Os últimos trinta anos causaram um prejuízo irreparável nos terrenos, nas ribeiras, na biodiversidade... há coisas que não conseguiremos recuperar. Não falo sequer no património imaterial, nas tradições, na memória, na cultura que desaparece a cada idoso que parte. Este progresso que nos andam a vender fez com que a população das aldeias atravessadas pelo rio Noéme, nos três concelhos, diminuísse de 4274 habitantes (dados retirados dos Censos 2001) para 3786 (Censos 2011). Quanto tempo faltará para que este território se torne um deserto? Que estórias contarão estas pedras? Ultrapassámos todos os limites: barragens, torres eólicas (plantadas sem critérios que não sejam os economicistas nos nossos montes), alcatrão e mais alcatrão, urbanizações em cima dos nossos ribeiros e invadindo reservas naturais e agrícolas. As gerações mais novas já não caçarão gambozinos, sentirão o cheiro a alecrim e bela-luz, beberão água das nascentes, aprenderão a nadar nas ribeiras ou saberão sequer o nome das árvores.

James Salzman, um especialista norte-americano em políticas ambientais, sustenta que “a maior ameaça ao desenvolvimento é a escassez da água potável”. Temos a água potável como um bem garantido, de tal forma que até nos damos ao luxo de destruir este recurso. Rajandra Singh é um activista ambiental indiano. Numa região pobre, despovoada e com um rio seco algures na Índia, pôs em prática as técnicas antigas de armazenamento de água das chuvas (pequenas barragens, lagos naturais, cisternas) e conseguiu dar vida a um rio seco há mais de 60 anos. Com o renascimento do rio as pessoas regressaram às suas aldeias e retomaram o cultivo dos campos. Para que não se voltasse aos tempos da miséria, criou o “Parlamento do rio Arvari” constituído por representantes das aldeias atravessadas pelo rio com a finalidade de cuidar dele, gerir a sua água, decidir o que plantar ou como organizar a floresta existente.

Que exemplo tão distante (e não me refiro à distância geográfica) face ao que por cá se faz! Defendo a execução de um conjunto de medidas para a recuperação do rio Noéme e das aldeias ribeirinhas. Em primeiro lugar, como condição primordial e prioritária, o fim imediato de todas as descargas de águas residuais não-tratadas no seu leito. Com vista à despoluição da água deverão ser criados sistemas de bio-remediação (é uma técnica completamente natural) para descontaminar os troços que estão poluídos. Cabe aos poderes públicos locais e nacionais executar esta tarefa e pôr fim ao crime ambiental. As restantes tarefas estão nas mãos das populações: limpar e desobstruir o leito do rio e de todos os ribeiros que o alimentam para facilitar a livre circulação das suas águas; elaborar uma cartografia dos ribeiros, fontes e lençóis freáticos que, desde a nascente até à foz, vão ter ao Noéme; garantir a limpeza das suas margens, removendo as espécies secas, desmatando e podando as árvores; valorizar os espaços envolventes, reintroduzindo o mais possível (não só nas zonas ribeirinhas, mas em todo o lado) as espécies autóctones; desenvolver a agricultura biológica, eliminando o uso de fertilizantes ou pesticidas responsáveis pela contaminação dos lençóis freáticos; construir sistemas de retenção de água, valorizar e limpar os antigos açudes, para uso agrícola. Ao mesmo tempo que se cuida do rio, é necessária a recuperação do património material (constituído por moinhos, pontões, muros, noras) e imaterial (toda a tradição e a história da relação das pessoas com o rio). Está visto que este recurso não pode ser gerido pelos poderes públicos. Um “Parlamento do rio Noémi” faria falta para que as populações destas aldeias voltassem a tomar como seu este recurso e tivessem uma palavra a dizer quanto à sua gestão. Este rio precisa voltar a ser usado livremente pelas pessoas. As populações desta região precisam voltar ao Noémi, ouvir o seu silêncio e voltar a sonhar. Porque se o sonho desaparecer, mesmo que ainda haja meia dúzia de pessoas a habitar as nossas aldeias, estas estarão irremediavelmente perdidas.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Noémi: um futuro para este rio (2)

O que fazer com estas aldeias?

Fleury-devant-Douaumont é uma aldeia francesa situada na Lorena que foi completamente destruída numa batalha na Primeira Guerra Mundial. Não foi reconstruída e é hoje um bosque, com presidente nomeado mas sem habitantes. Os visitantes que ali vão procuram memórias. A Guarda é um concelho situado na zona centro do país, na prosa de Miguel Torga aplicada à Beira mas que considero oportuna também neste caso, “à roda, sempre à roda da força polarizadora: - a Estrela”. Vindo de Lisboa, ao atravessar os túneis da Gardunha, abre-se uma porta e o visitante é envolvido num abraço de boas-vindas pela Serra da Estrela e entra numa tela pintada do amarelo das maias na Primavera e do cinzento do robusto granítico todo o ano. Do alto da Serra, o concelho expande-se em direcção a Espanha, conferindo-lhe uma heterogeneidade social e física muito interessante. Visitar as aldeias da Guarda hoje em dia é ir a locais cada vez mais soturnos, mais vazios, onde já não há ninguém que mande entrar, antes ainda de perguntar quem é. Estas aldeias não vão desaparecer devido à Guerra, pelo menos na estrita definição do termo. Vão tornar-se mais dia, menos dia lugares-fantasma porque perderam a batalha demográfica. Por cada aldeia que morre, é Portugal que se torna um país um pouquinho mais pequeno.

Não são de hoje os movimentos migratórios de saída. No apogeu das Descobertas Marítimas queixava-se Sá de Miranda “ao cheiro desta canela o Reino se despovoa”. Ao longo do século XX, primeiro para o Brasil, depois para a Europa, muita gente deixou estas aldeias, mas os índices de natalidade eram claramente superiores aos actuais. Na maioria das pessoas que emigravam havia o objectivo de regressar nem que fosse a cada ano por alturas do Verão. Isso aconteceu porque raras foram as épocas em que houve de facto prosperidade e riqueza nesta região e mais escassas ainda as vezes em que os governantes olharam para este pedaço de Portugal sem ser para cobrar impostos. Houve laivos de modernidade quando, em finais do século XIX, o caminho-de-ferro atravessou estas aldeias (e um medo tal, ainda vivo na tradição oral, quando a primeira máquina a vapor atravessou aqueles campos, bufando fumo negro e espesso, ruidoso como as trombetas do Inferno anunciado nos púlpitos ignorantes das igrejas). Beneficiando das particularidades climatéricas que possui, a Guarda foi, durante anos, local importante de tratamento da tuberculose no Sanatório Sousa Martins, inaugurado pelo rei Dom Carlos e pela rainha Dona Amélia. Num concelho tradicionalmente agrícola, houve algum emprego regular e conhecimento quando se instalou a indústria automóvel. Numa primeira fase, os dinheiros da CEE permitiram o saneamento básico das aldeias, mas ao mesmo tempo a destruição da débil agricultura existente. Numa segunda fase, a construção sem qualquer critério de polidesportivos em todas as freguesias e salões de festa fechados por não haver quem os dinamizasse. O que aconteceu nos últimos trinta anos, aqui e ali disfarçado de alguma prosperidade, foi a destruição dos nossos recursos, da paisagem e das nossas potencialidades. Nunca ninguém cuidou de desenvolver o que havia, criar valor para fixar as pessoas, quanto mais pensar e preparar o futuro.

Estima-se que cerca de 20% do território português esteja despovoado ou desertificado e que 40% está exposto a este problema. Não nos iludamos. O concelho da Guarda contribui significativamente para estes números: o pouco de floresta autóctone que havia ardeu; dos três rios (Zêzere, Mondego e Noémi) que nascem no concelho, um é alvo continuado e regular de descargas poluentes; os campos agrícolas, completamente improdutivos, à mercê de legislação (vejam-se as recentes iniciativas sobre as sementes, os eucaliptos ou os baldios) que mais do que um retrocesso ambiental constitui o deitar da última pá de terra na sepultura onde jazem as nossas aldeias. Se no entender de Eduardo Lourenço “o português médio conhece mal a sua terra (…) é um facto que releva de um mais genérico comportamento nacional, o de viver mais a sua existência do que compreendê-la”, por outro lado – e o que me dá alguma esperança de mudança – é que esta terra é habitada por uma raça de gente que sempre lutou e venceu a adversidade: onde havia barrocos lavrou fundo com sangue e suor e encontrou terra, contrabandeou para pôr o comer à mesa em casa, emigrou mas na sua terra construiu casa e a ela regressou assim que pôde. E, sobretudo não perdeu o carácter, não curvou a espinha e nunca deixou que lhe pusessem a pata em cima.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Noémi: um futuro para este rio (1)

Que Interior?

Sem pretensão de cátedra podemos caracterizar geograficamente Portugal continental como um rectângulo de 650 Km de comprido por 190 Km de largo. Demoramos no máximo duas horas de carro entre a principal fronteira terrestre, Vilar Formoso, e o Atlântico. É um país que tem mais ou menos a meio o seu grande marco orográfico, a Serra da Estrela, ainda assim sem a imponência que outras montanhas na Europa têm. Portugal é um território com várias realidades físicas, sociais e culturais. Sendo uma caixinha tão pequena, sem divisões regionais claras, empurrada de Espanha para o mar, faz sentido falar em Interior?

Há vários Interiores no discurso público: o Interior de que fala muitas vezes a comunicação social é todo o país que sai fora das fronteiras das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Interior, para os políticos em campanha eleitoral, é aquele sítio recôndito que prometem desenvolver e potenciar. Interior, para os políticos em governança, é aquele sítio recôndito onde fecham serviços públicos. Se, num inquérito de rua, pedirmos que nos indiquem expressões que caracterizem o conceito, “desertificação”, “despovoamento”, “abandono”, “fecho” estarão certamente entre as mais citadas.

Já vimos a dificuldade em definir o conceito, mas há outro problema: o Interior de Portugal é uno e claramente delimitado no mapa ou existem vários, cada um com particularidades próprias? Trás-os-Montes é igual ao Alentejo? E nos arquipélagos atlânticos? As populações da Serra da Estrela têm os mesmos problemas do que as que vivem na Serra do Caldeirão? E pode-se falar ou não na dicotomia cidade/campo? É indiscutível que existem grandes desigualdades entre regiões em Portugal. Estas desigualdades ficaram mais visíveis a partir de meados do século XX com a emigração e os processos de des-ruralização, que se começaram a acentuar. Mas não podemos esquecer que estes acontecimentos poucas vezes tiveram uma resposta à altura por parte dos poderes públicos que há muito deixaram de pensar o país enquanto território, de forma estratégica. São apresentadas medidas avulso, reactivas e que dificilmente resolverão os verdadeiros problemas. O problema demográfico em Portugal é muito grave e é-o mais ainda no território nacional caracterizado como rural. Num passeio por essa faixa de terra encostada a Espanha vêem-se campos agrícolas abandonados, paisagens naturais destruídas e, se entrarmos nas nossas aldeias, portas fechadas. 

A mais recente resposta pública aos problemas do território consistiu numa reorganização das freguesias que não foi mais do que a agregação de localidades feita à pedoa sem qualquer preocupação com as afinidades e as rivalidades entre elas e, na maior parte dos casos, eliminando o último elemento identitário das populações. A resposta pública ao problema orçamental é o fecho de serviços públicos, de que as escolas primárias são exemplo a cada ano lectivo, a que se juntou no ano passado o fecho de muitos tribunais. Já antes tinha acontecido o mesmo com os centros de saúde, os correios e outras repartições da administração pública. Com o argumento de que não é viável manter estes serviços onde não há pessoas, verificamos hoje que há localidades em Portugal onde a bandeira da República Portuguesa já não é hasteada. Nas palavras do geógrafo João Ferrão, um especialista em questões do ordenamento do território, é necessário “pensar e implementar políticas conjuntas que aumentem a eficiência e ao mesmo tempo potenciem a coesão territorial, pois sem inteligência territorial”, Portugal chegará ao ano de 2060 com 6,4 milhões de habitantes (número estimado se se mantiverem os níveis demográficos actuais) sem respostas para lidar com a situação.


Nota: O ensaio "Noémi: um futuro para este rio" foi escrito em finais de 2014 e nunca chegou a ser publicado. Torno-o público esta semana dividido em três partes.








domingo, 15 de janeiro de 2017

Santo Amaro

Comemora-se hoje o Santo Amaro, a quem a religiosidade popular associa méritos na curar-se doenças dos ossos. No concelho da Guarda, comemora-se no Porto Mourisco, numa singela e bonita capela junto à Ribeira das Cabras.

Se o próximo mandato será ambiental, Amaro, o presidente não o santo, deverá pôr os ossos ao caminho e começar a conhecer as ribeiras e os ribeiros do concelho.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Se o próximo mandato vai ser ambiental...

Diz Álvaro Amaro no contexto do anúncio dos "dois projectos ambientais" que o próximo mandato vai ser "ambiental" (lido na imprensa regional).

Assume em primeiro lugar que vai haver próximo mandato; considera por outro lado que basta acordar de manhã e colocar o chapéu ambiental para que a consciência e a prática ecológica cheguem e transformem o homem. 

Relembremos pois a marca ambiental de Álvaro Amaro na Guarda neste mandato:

1. Inércia/cumplicidade/desinteresse na resolução do crime de poluição do rio Noéme (mais três anos perdidos);

2. Abate de árvores na avenida Cidade de Salamanca e tentativa de fazer o mesmo no Parque Municipal;

3. Intervenção no Jardim José de Lemos, com decisões de requalificação de usabilidade duvidosa.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

"Ninguém gosta mais de árvores do que eu", Álvaro Amaro in "Revista do Ano 2016"

Ouvi na Revista do Ano 2016, emitida na Rádio Altitude, esta declaração de Álvaro Amaro: "ninguém gosta mais de árvores do que eu".

E de rios, senhor presidente, gosta?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017